No dia 18 de abril, às 19h, no auditório do clube, a moradora do Portal Nana Pastorello apresentou, ao lado do Trio que Chora, o show “As meninas, as montanhas – o caminho das mulheres”, que aborda a trajetória da composição feminina na música brasileira, desde Chiquinha Gonzaga até os dias atuais.

Nana esteve acompanhada pelas musicistas Marta Ozzetti na flauta, Rosana Bergamasco, no violão de sete cordas, e Cassia Maria, na percussão. O repertório reuniu composições autorais, obras de Chiquinha Gonzaga, músicas de compositoras consagradas e também de artistas ainda pouco conhecidos do grande público.

“Fui inspirada por duas pesquisadoras da música brasileira ao pensar no show. A primeira foi a maestro Andrea Botelho, que mora em Berlim, na Alemanha, e trabalha na divulgação da música brasileira por lá. Ela possui profundo conhecimento sobre a obra de Chiquinha Gonzaga, criou uma peça baseada na artista e tornou-se a primeira regente de uma orquestra no sul da Alemanha, que já existe há 130 anos”, explica Nana.

A outra inspiração foi Denise Mello, pesquisadora, compositora e cantora, autora do livro “A mulher na canção: a composição feminina na era do rádio”, que apresenta a biografia de dezoito compositoras brasileiras. “Todas essas mulheres tiveram um caminho muito árduo, repleto de obstáculos, até chegarem onde chegaram”, afirma Nana, destacando que essa trajetória foi determinante para a criação do próprio show.

O nome da apresentação também carrega um significado especial. Assim como muitas das compositoras homenageadas, Nana iniciou sua trajetória musical ainda na infância. Aos oito anos já aprendia e tocava piano. “As meninas, as montanhas – o caminho das mulheres” fala sobre diversas jovens compositoras que precisaram escalar montanhas íngremes e enfrentar caminhos tortuosos para conquistarem reconhecimento na música.

Nana aprofundou suas pesquisas sobre canções de Chiquinha Gonzaga, incluindo “Simpatia”, baseada no poema de Casimiro de Abreu. O repertório contempla ainda Dolores Duran, considerada uma mulher compositora em destaque na época da bossa nova, que trabalhou com Tom Jobim. “Me animou muito mostrar o trabalho de Chiquinha e de outras compositoras. Na época de Chiquinha, as mulheres não podiam se apresentar publicamente ou precisavam utilizar pseudônimos masculinos”, conta Nana, referindo-se à biografia de Chiquinha Gonzaga, escrita por Edinha Diniz.

Segundo Nana, Chiquinha Gonzaga foi pioneira ao abrir caminhos para outras mulheres na música. “Queria mostrar o trabalho de compositoras que foram esquecidas ou apagadas da memória. É um resgate por meio da pesquisa das obras dessas mulheres.”

Outro exemplo citado pela cantora é o de parcerias entre homens e mulheres cujos créditos eram atribuídos apenas aos compositores masculinos, como ocorreu em diversas colaborações de Dominguinhos com Anastácia, sua parceira.

O trabalho de pesquisa de Nana também busca aproximar o erudito da música popular, trazendo ao repertório compositoras como Babi de Oliveira, com a canção “Recomendação”.

“Ainda hoje, existem muitos obstáculos ao trabalho da mulher, além de preconceitos sobre a capacidade e a força femininas. Por isso, cada trabalho de uma cantora e de uma compositora importa inclusive para ampliar a presença de mulheres no mercado musical brasileiro”, afirma.

Antes da parceria com o Trio que Chora, Nana se apresentava com uma banda formada por músicos homens. No entanto, ao refletir sobre a proposta do projeto, decidiu convidar o trio feminino, entendendo que essa formação dialogava melhor com a essência do show.

Nana pretende dar continuidade ao projeto e ampliar a pesquisa ao incorporar obras de outras artistas, especialmente compositoras contemporâneas que ainda não receberam um reconhecimento merecido. “Não apenas a composição feminina, mas também a presença de instrumentistas mulheres nos palcos, é uma questão muito importante para mim. Estou muito honrada e feliz por ter realizado esse projeto com Marta, Rosana e Cassia. E quero continuar, porque ainda há um caminho muito bonito a ser trilhado”, celebra a cantora, compositora e pesquisadora.